Júlia Kawano

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Por que repetimos o que já sabemos que faz mal

Você reconhece o padrão. Consegue até descrevê-lo em detalhes. E, ainda assim, ele acontece de novo. Entender por que isso ocorre é diferente de se culpar por isso.

“Eu já entendi tudo isso. Já sei de onde vem. Por que continuo fazendo?” É, talvez, a pergunta mais frequente que chega ao consultório — e uma das mais honestas.

A resposta curta é que compreender e mudar são processos diferentes, sustentados por partes diferentes de nós. A resposta longa é mais interessante.

A repetição não é descuido, é economia

Todo padrão que se repete um dia serviu para alguma coisa. Se você aprendeu cedo que se antecipar ao humor do outro evitava conflito, isso foi uma solução inteligente para a situação em que você estava. O problema é que soluções não vêm com data de validade. Elas continuam operando muito depois de o contexto ter mudado.

A pesquisa em psicologia dá nome a esse mecanismo em várias frentes. Nos estudos sobre apego, iniciados por John Bowlby e Mary Ainsworth e continuados por décadas de pesquisa longitudinal, esses padrões aparecem como “modelos internos de funcionamento”: mapas construídos nas primeiras relações que seguem orientando como esperamos ser tratados. Na literatura sobre hábito, trabalhos como os de Wendy Wood mostram que boa parte do comportamento cotidiano é disparada por contexto, não por decisão consciente. Nenhuma dessas linhas culpa quem repete. Todas indicam o mesmo: a repetição é automatismo, e automatismo não responde a boas intenções.

A compreensão não é um interruptor. Saber por que você faz algo não desliga o algo — mas abre a fresta por onde a escolha entra.

O que muda na análise

O que se repete lá fora costuma aparecer aqui dentro também. A forma como você conta as coisas, o que adianta que não é importante, o momento em que muda de assunto — tudo isso é material. E é justamente por acontecer no presente, entre duas pessoas, que se pode observar em tempo real algo que, na vida, passa rápido demais para ser percebido.

Com o tempo, o intervalo entre o gatilho e a reação começa a se esticar. Primeiro você percebe depois de acontecer. Depois, durante. Depois, um instante antes — e nesse instante já existe outra possibilidade. Não é um estalo. É um deslocamento lento, e é exatamente por ser lento que se sustenta.

Não é preciso parar de repetir para começar. Começa-se, e no caminho a repetição vai perdendo a última palavra.

Este texto é uma reflexão de caráter informativo e não substitui acompanhamento psicológico individual.

Se algo aqui te fez pensar, podemos começar por uma conversa.

Você me conta o que te trouxe até aqui e eu te conto quem sou e como costumo trabalhar. E, a partir daí, você poderá decidir se serei eu a te acompanhar nesse processo.

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