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Quem cuida de quem sempre cuidou
Ser a pessoa forte da família ou do grupo tem um custo que quase nunca é contabilizado — inclusive por quem paga.
Existe um papel que costuma ser distribuído cedo e nunca mais revisto: o da pessoa que dá conta. É para ela que ligam quando algo desanda. É ela quem organiza, resolve, escuta e segura. E é ela quem, quando perguntada como está, responde “estou bem” antes mesmo de conferir.
Quem ocupa esse lugar raramente se percebe sobrecarregado. Percebe-se responsável. A diferença entre as duas coisas costuma ficar clara só quando o corpo avisa — insônia, irritação fora de proporção, um cansaço que dormir não resolve.
O cuidado que não volta
A literatura sobre cuidadores é consistente nesse ponto: prestar cuidado contínuo, sem espaço de recuperação e sem reciprocidade, está associado a maior desgaste emocional e maior risco de sintomas depressivos e ansiosos. Não porque cuidar seja ruim, mas porque o cuidado sem via de retorno é despesa sem receita. Em algum momento, a conta aparece.
Há também um aspecto mais silencioso. Quando alguém aprende muito cedo que sua função é sustentar os outros, as próprias necessidades não são reprimidas — simplesmente não chegam a se formar como pergunta. “Do que eu preciso?” não é uma questão difícil de responder. É uma questão que nunca foi feita.
Ser forte foi uma solução. Não precisa continuar sendo a única.
Um lugar onde não é preciso sustentar nada
Uma das coisas mais desconcertantes da análise, para quem sempre cuidou, é perceber que ali não há ninguém a segurar. A sessão não precisa render, não é preciso trazer um bom assunto, e não há nada a sustentar para que a conversa funcione.
É comum que as primeiras sessões sejam usadas para falar dos outros. Faz sentido: é a língua que se domina. Aos poucos, o foco escorrega para dentro — geralmente por uma frase pequena, dita de passagem, que não parecia importante. Costuma ser a primeira vez, em muito tempo, que alguém pergunta de você e espera a resposta inteira.
Este texto é uma reflexão de caráter informativo e não substitui acompanhamento psicológico individual.
Se algo aqui te fez pensar, podemos começar por uma conversa.
Você me conta o que te trouxe até aqui e eu te conto quem sou e como costumo trabalhar. E, a partir daí, você poderá decidir se serei eu a te acompanhar nesse processo.